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sábado, 13 de dezembro de 2025

Retornos

Fui à Augusta comprar um presente de Natal. A loja não existe mais, não que não esteja mais no mesmo lugar: fechou. Busco no site. Até ontem recebia pedidos, estou 24h atrasada.

Como vinha de metrô, coloquei uma sandália nova. Não porque quisesse usa-la de fato, mas porque andaria pouco, sapato novo precisa amaciar. E nesse processo deixa marcas.

Ontem fui à academia. Depois de quase um mês, por uma conjunção de fatos como uma lesão no punho, duas viagens, receber amiga em casa, preguiça e volta ao trabalho pós férias caótica. Fiz perna. Diminuí a carga de todas as séries e não fiz os 30km habituais de bike depois. Não queria ficar dolorida. Fiquei.

Essa semana assisti "O Agente Secreto". Pela segunda vez. Gostei mais que da primeira. Durante os trailers passou o mesmo que havia passado da primeira vez que assiti, lembrei que tinha ficado interessada no filme, mas tinha esquecido completamente. Estando na Augusta, de caso pensado, me levei pro cinema. Após a tentativa de compra frustrada. Após a sandália já deixar marcas. 

Aguardando faltar 10min para o início da sessão para entrar na fila da pipoca que seria meu jantar, sentei desconfortavelmente no banco sem encosto e, com dores em diversos lugares, abri o livro que estava devorando mas está perto do fim. Leio um parágrafo que me comove. Faço uma foto, quero dividir isso com meu mundo. Estou editando para colocar na rede, afundada na minha tela. "Moça" Olho de canto de olho. "Moça" Parece que é comigo mesmo. "Eu vi que você estava lendo... eu trabalho na livraria do cinema... pode escolher" Um homem alto está quase dobrado pela metade para chegar com as mãos que carregam 3 marca-paginas na altura dos meus olhos. Escolho um sem prestar muita atenção. Tocada pelo gesto. Desconfiada: será que ele viu eu dobrando a pontinha da página quando encontrei a passagem que queria guardar comigo e por isso veio aqui? "Ah, obrigada" Respondo meio sem jeito pro moço que provavelmente não se lembre que no dia da greve de ônibus disse que "O filho de mil homens" tinha acabado, que há poucas horas tinha vendido o ultimo exemplar mas que em 2 dias já deveria receber mais. 

Eu tenho um problema sério com fins. Sofro para terminar séries que estou gostando. Deixo o ultimo episódio lá parado um tempo. Já aconteceu de ficar indisponível antes que eu tivesse coragem para finalizar. Com livros é pior. Como não tenho o costume de ler mais de um ao mesmo tempo (apesar de agora estar fazendo isso) quando algo bom se aproxima do fim, fico alguns dias sem ler. Gostaria de dizer que é inconsciente. Gostaria de dizer que só se aplica a livros e séries. 

Há 14 anos algo acabou. Pouco tempo depois de ter se transformado. Ainda não consigo escrever sobre isso, mas do jeito mais surreal, simples e verdadeiro um elo se refez. E por isso descobri que esse blog ainda existia. 

O filme termina. Eu não sei se gosto de filmes que deixam o final em aberto. Vou caminhando até o metrô devagar (sandália, pernas doloridas, nenhum lugar para estar). Ouvi recentemente um podcast onde a pessoa dizia que, após a aposentadoria, parou de correr para pegar o farol de pedestres aberto. Desde que ouvi isso, também tenho evitado. Me incomoda perceber que muitas vezes estou apenas esperando o que vem depois. Chegar em algum lugar, sair de algum lugar... tão pouco tempo para estar.

O período pós férias - quando é possível nas férias ter tempo para fazer as coisas com tempo - é cheio de incoerencias. Os prazos estão aí, tem coisas a fazer, muita coisa a procrastinar. Mas a proximidade com ter um tido um tempo realmente meu, me faz procrastinar sim, mas com coisas que realmente quero fazer. Tentar comprar presentes de Natal. Ver um filme iraniano sozinha no cinema num sábado a noite. 

Essa semana ouvi um podcast sobre silencio. Ela dizia que passou um dia sem ouvir podcasts ou música, ouvindo apenas o barulho da vida. Intencionalmente. Ao ouvir, dei uma resmungada interior. Como se estivesse me sentido julgada por passar tantas horas do meu dia com o fone martelando informações na minha cabeça para que eu não ouvisse minha própria voz. Hoje pela manhã ouvia um podcast enquanto tomava café, e percebi que não prestava atenção em absolutamente nada que estava sendo jogado para dentro dos meus ouvidos. Desliguei o fone e não coloquei mais durante todo o dia.

No metro, na volta, duas senhoras conversando sobre a ceia de Natal. Uma vai receber 27 pessoas (seriam 31, mas um sobrinho vai para África e um afilhado vai estar trabalhando, então as namoradas também não vão) e a outra vai receber 9 (seriam no máximo 10, pois a filha mais velha não vai). As duas querem fazer algo simples, pois estão cansadas de passar o dia todo cozinhando e depois não ter tempo de arrumar o cabelo para ir à igreja. 

Todos os vidros dos vagões estão completamente adesivados. Parece claustrofóbio, ainda mais com a sensação do infinito dos vagões sem separação. O tunel é fechado, mas o movimento tira a sensação de claustrofobia. Tem um moço muito alto. A pessoa mais alta ao lado dele fica um pouco mais baixa que o queixo  dele. Pelo menos não é alto o suficiente para ter que ficar curvado no metrô. Tiro uma foto. 

Saio do vagão e vou me dirigindo para a escada rolante. Mas todos estão desviando da escada. Desvio também. Era a saída, eu queria ir para a conexão, obrigada efeito manada. Tem um moço com uma placa: "fome". Eu não tenho dinheiro na bolsa. Nem comida. Será que deveria ter guardado quase metade do pacote de pipoca que sobrou? Eu costumava andar com algo para poder oferecer para pessoas nessa situação. Desde que me mudei para o centro não faço mais isso. São pessoas demais.

Minha cabeça está borbulhante. Uma vontade absurda de escrever. Escrever requer uma musculatura. Não apenas mental, mas física mesmo. Tudo que está na minha cabeça não consigo escrever à mão, sinto dores com menos de duas páginas escritas. Ganhei um caderno lindo, onde só quero escrever coisas bonitas. Até agora ele tem só uma frase "Ainda há tanto".

Notificação no celular, vejo mensagem no grupo de amigas, rolo um pouco o feed, meus pensamentos se acalmam e tenho medo de ser sugada novamente para a tela. Guardo o celular na bolsa. Toda vez que tento escrever algo no celular, tudo me parece tão... incompleto. Preciso de um notebook pessoal para fazer coisas pessoais. 

O livro que estou lendo é uma autobiografia de uma escritora uruguaia. Na adolescencia ela tinha uma fascinação por máquinas de escrever. Para ela, a máquina de escrever era uma impossibilidade, era cara e só se usava em ambientes comerciais e administrativos. Quando eu era adolescente eu também tinha essa fascinação. Para mim, era uma relíquia. Mas minha mãe tinha uma guardada, que havia sido aposentada após a chegada do computador no trabalho. Ainda acho que as melhores coisas que escrevi foram nessa máquina. A mãe dessa escritora também dizia que ela não deveria ser escritora. Mas ela foi. Ela é. Me pergunto como minha vida seria se eu tivesse tido a coragem que ela teve. Será que me lembrarei de tudo que tive vontade de escrever nessas ultimas horas? 

Ao chegar em casa sou recebida com sons gruturais de um gato que não quer comer nada dos 4 potes de ração espalhados pela cozinha. Abro a geladeira, sirvo ração pastosa. Ele não come. Misturo um pouco de água, ele parece se interessar mais. A outra gata aparece na porta, ela tem compulsão alimentar e dermatite, além de estar acima do peso - como diria o veterinário da cachorra da minha amiga, pelo menos sabemos que o animal não é roubado. Pego a cordinha para chamar atenção dela para que ela não perturbe o gato faminto e abaixo do peso, vou andando até o escritorio. Cordinha numa mão, notebook na outra. 

Sim, ao contrário do mercado livre, ainda tenho acesso à conta do blogger.